O Medalhão das Respostas Sinceras
Eduardo caminhava solitário pela praça, bastante agasalhado, pois aquele inverno estava realmente rigoroso.
Indagava-se sobre sua vida, comparando-a sempre com a dos outros, tentando imaginar como seria se fosse mais bonito, alto e forte. Será que Keyla Almeida, sua grande amada, o enxergaria?
Estudavam na mesma turma desde a pré-escola, contudo, nunca tinham conversado. Nem um simples "Bom Dia" ou "Oi". Viviam no mesmo mundo, mas em realidades completamente diferentes.
Enquanto ela curtia os benefícios de sua exuberante beleza, cheia de amigos e popularidade. Eduardo permanecia sozinho, suas únicas companhias eram os livros.
Ao passar próximo a um banquinho foi atraído por um brilho dourado que cintilou por alguns instantes, o suficiente para lhe chamar a atenção.
Aproximou-se lentamente e cheio de curiosidade, tentando adivinhar do que se tratava.
Parecia a princípio uma enorme moeda, com dois terços de seu todo enterrada. Encontrava-se bem atrás do banco, na grama curta.
Sem nada a perder, agarrou o objeto com a mão direita e o puxou, sem sucesso. Usou as duas, esforçou-se, novamente fracassou.
Até um item sujo, conseguia subjugá-lo daquela maneira? Não! Adquirir o objeto agora era uma questão de honra!
Ajoelhou-se no gramado, sob o olhar de algumas pessoas que passeavam pela praça ou estavam sentadas em outros bancos, e voltou-se ao trabalho.
Puxou, puxou e puxou! Até que o objeto saiu, e ele caiu de costas no chão.
Sem se erguer, admirou o medalhão redondo e dourado, que tinha um símbolo roxo na frente, bem grande no centro, similar a uma letra árabe ou seria chinesa?
Atrás não havia símbolo algum, nem nas suas infinitas laterais . Ele ainda tinha uma saliência em cima, com um buraco, provavelmente para se colocar alguma corrente ou cordão e levá-lo pendurado ao pescoço.
-Que belo medalhão-murmurou o garoto, erguendo-se-Esta um pouco sujo, mas não a ponto de alguém precisar se livrar dele. É só dar uma lavadinha e pronto! Será que fico com você ou dou de presente pra alguém?
De repente, para o espanto de Eduardo, o símbolo púrpura brilhou intenso.
"É melhor me jogar fora, para o seu próprio bem, pois aqueles que me..."
Assustado com a voz grave e fria que saia do objeto, o garoto atirou-lhe para longe.
-O que foi aquilo-o coração de Eduardo batia a mil por segundo, enquanto seu corpo tremia-O medalhão falou comigo?
Não sabendo o que fazer, olhou ao seu redor, ninguém mais o observava. Enquanto ao longe, a luz roxa cessou.
A chuva estava próxima. Todavia, ao mesmo tempo que todos voltavam a suas casas, o garoto ali continuava.
Parado e pensativo, seria alguma espécie de comunicador? Ou gravador?
Entretanto aquela voz, era bem peculiar e sem sentimento.
A curiosidade o fez ir novamente ao medalhão.
-O que é você?-inqueriu, com o item entre os dedos. A "letra" voltou a iluminar-se.
"Sou aquele que tudo sabe e tudo pode saber. Sou o Medalhão das Respostas Sinceras por assim dizer. Pergunte-me o que quiser, se assim desejar, que com toda sinceridade possível, irei a resposta te dar.
-Hum...vai chover?
"Com toda certeza afirmo, isso vai acontecer."
Aquela pergunta era fraca, qualquer um poderia responder. Talvez fosse uma pegadinha...Sim, alguém o observando de longe!
-"Tá bom", "Sabichão"-sorriu Eduardo,-Se você sabe tudo, então me responda, como se chama a pessoa que mais amo?
Seu sorriso e fisionomia tomaram um ar arrogante e seu peito estufou. Só ele sabia dessa resposta, nunca tinha dito a ninguém.
"Se com essa pergunta, você quer me testar, afirmo ser Keyla Almeida a resposta correta."
-Não, eu...- sua mente estava tão certa do resultado errado que, quando ouviu aquilo, tardou a aceitar-Não pode ser! Isso é impossível!
A chuva começou, ao mesmo tempo em que os pensamentos do garoto confundiam-se num mar de medos e curiosidades.
Guardou o item no bolso e correu para casa. Chegou encharcado, deu qualquer desculpa aos pais e logo trancou-se no quarto.
Passou a testar o medalhão, com as mais variáveis indagações, desde as mais fúteis, aquelas de caráter filosófico.
Até que inqueriu sobre: Quantas perguntas faria antes da sua morte? E teve uma resposta bastante desagradável.
"Sua vida rapidamente acabará, quando a milésima pergunta você me indagar."
Eduardo engoliu seco.
-Quantas perguntas-hesitou um pouco-já fiz, contando com esta?
"Se somar todas as indagações que já me fez, chegará com certeza aos noventa e seis"
O garoto jurou a si mesmo que jamais faria a pergunta número mil. Além de sempre anotar suas interpelações futuras numa agenda preta. Tentou ainda descobrir se havia algum modo de impedir isto, porém, o medalhão da sua maneira, disse "não".
Comprou uma corrente para o objeto e passou a levá-lo pendente no pescoço, não o tirando nem para tomar banho.
Foi crescendo e enriquecendo, fez amigos e conquistou sua amada. Muitos o questionavam sobre seu medalhão e a agenda, com demasiado nervosismo e até brutalidade, ele sempre dava um jeito de cessar a conversa. Chegando certa vez a dar um tapa na mão de Keyla, sua própria esposa, só por que ela tentou tocar o objeto dourado.
Ganhou na loteria, três vezes e decolou financeiramente. Abrindo uma empresa, que em menos de dois anos, tornou-se uma das corporações mais influentes do mundo.
Aos vinte e um anos de idade Eduardo Bethancourt tornou-se o homem mais rico da América Latina. E ganhou o apelido de "Senhor Sorte".
Certo dia, estava prestes a fazer um investimento bastante arriscado, poderia ganhar ou perder bilhões. Era hora de consultar o medalhão.
Mas quando ele abriu sua agenda, reparou que se fizesse mais uma interpelação, a seguinte seria a número mil. Ou seja, só tinha mais uma pergunta disponível.
-Droga, minha última questão não pode ser sobre negócios!
Fechou a agenda, ficando a admirar o Medalhão das Respostas Sinceras. Quanto tempo havia passado desde a primeira pergunta?
Antes era um fracote, sem nada. Porém, agora era forte; tinha sucesso, dinheiro, fama, influência e admiração mundial. Casou-se com a mulher que sempre amou e obteve duas crianças saudáveis.
Contudo, ainda faltava algo, sentia um vazio. Tudo aquilo parecia tão superficial. Nunca sabia se as pessoas lhe diziam a verdade ou não.
Eduardo após muito refletir, concluiu que quanto mais dinheiro ele ganhava, menos as pessoas o repreendiam e mais amigos tinha.
Pela primeira vez, invejou-se do passado que tinha. Por mais que não fosse o "Senhor Sorte", as pessoas diziam sempre o que achavam dele, nem que isso o magoa-se. Em todos esse anos, o único que ele tinha certeza de sempre ser sincero com ele era seu medalhão.
-Depois de muito pensar, tenho minha última pergunta, pois nunca farei a milésima mesmo.-abriu um sorriso, esperançoso-Eu estou cercado de pessoas, mas não sei quem é verdadeiro comigo, mas eu não me importo tanto. As únicas pessoas com as quais me interesso são minha esposa e filhos, então baseado nisso pergunto. Meu bom amigo! Keyla Almeida, minha esposa, me ama?
Eduardo ergueu-se da cadeira e abriu a janela do escritório, assim que sua pergunta fosse respondida jogaria o item para longe, não se daria ao luxo de mudar de ideia sobre a última pergunta.
Será que seria imortal? Nunca tinha parado para pensar.
O símbolo do medalhão brilhou roxo.
" De todas as pessoas no mundo, ela é quem mais o detesta, queria o ver morto, mas age sem pressa. Calculando friamente os passos a seguir, em poucos anos e com sua assinatura, tomou tudo de ti. Afirmo que em breve ela estará aqui, girando naquela cadeira, sorrindo e feliz. Até mesmo as crianças que reivindica ter, não tem o seu sangue e nunca iram ter. Sendo frutos de traição, e jamais vão saber. Por que em pouquíssimo tempo, o pai de sangue voltará, e em menos de um ano, o substituirá. Aqueles que o veneravam, de ídolo mudaram, e os que se dizem amigos, também sumiram. Os únicos que realmente o amavam a tempos atrás, faleceram a muito, é tarde demais. Estou sendo metafórico, mas falo de seus pais. Os mesmo que esqueceu, e nem sequer no velório deles compareceu.
Tudo aquilo deixou Eduardo confuso, ao mesmo tempo, furioso! Não era bem a resposta que esperava.
-Mentiroso!-berrou, lançando o medalhão pela janela.-Maldito, mentiroso!
-Senhor Bethancourt?-disse sua secretária, adentrando sutilmente na sala-O senhor está bem?
-Chame o helicóptero, quero ir pra casa.
Durante a viagem, foi refletindo. Até que decidiu ler os contratos assinados a anos por ele, persuadido pela esposa, sem ao menos ter lido um. Sim, o medalhão como sempre, dizia a verdade. Havia entregado tudo, sem qualquer resistência.
Quando chegou em casa, lá estava sua esposa e filhos. Era hora da janta, ele de um lado, Keyla de outro e as crianças nas laterais sendo alimentadas por duas babás.
-O que foi querido?-perguntou, num tom de voz doce-Quer falar alguma coisa?
-Quero fazer uma pergunta sim.
-Qual, amor?
Pela primeira vez, sentiu como se Keyla estivesse atuando, era muito forçado. Por que nunca havia reparado nisso antes?
-Você...
-Eu...?
-Você me ama? Digo....Você realmente me ama?
As babás pararam o que estavam fazendo para observar, quando sua patroa ergueu-se e foi até o marido. Dando-lhe um beijo demorado.
Eduardo reparou nele também, como era frio! Mais superficial do que os das prostitutas que possuía em suas noitadas com os "amigos".
-Isso responde a sua pergunta?-ainda era a voz meiga.
-Sim. Completamente.
Assim, ele levantou-se e saiu andando.
-Pra onde você vai, amor?
-Vou rever um velho amigo.
-Qual deles?
-O mais sincero!
Eduardo voltou para a empresa e foi para rua, procurar o medalhão.
Andou e andou, observando tudo ao seu redor, sob o olhar curioso de outras pessoas.
Já amanhecia e nada, foi quando se voltou a uma caçamba cheia de lixo. Era o único lugar que não havia ido.
Subiu nela, e passou a rasgar os sacos pretos, desesperado.
Até que finalmente encontrou. Lá estava , dourado e com o símbolo púrpura.
Desceu da caçamba e sentou-se apoiando as costas nela.
-Medalhão das Respostas Sinceras, agora acredito em você. Nunca deveria ter duvidado! Mas quando se vive uma doce mentira, é difícil dar ouvidos a amarga verdade. Agora começo a compreender. Me lembro que quando o encontrei, me aconselhou a te jogar fora, mas eu fui teimoso.
Lágrimas escorreram pelo seu rosto.
-Eu sei que minha vida pessoal não foi a das melhores, mas fiz uma grande fortuna! Fico imaginando sobre meu fim. Acho que essa será minha última indagação mesmo. Medalhão das Respostas Sinceras, como morrerei?
" Será assassinado por três ex-empregados, que você demitiu, sem dar direitos ou cuidados. Sugiro se preparar agora, pois você esta prestes a ser esfaqueado."
A luz roxa se apagou, quando Eduardo ergueu a cabeça um trio de homens magros e sujos, o cercava com facas na mão.
Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa em sua defesa, começaram a perfurá-lo com uma voracidade brutal.
Todos ficaram atônitos algumas horas depois, quando descobriram que um dos homens mais ricos do mundo, havia sido assassinado em frente a sua própria empresa.
Uma testemunha afirmou tratar-se de um assalto, porque após esfaquearem o empresário, roubaram-lhe coisas. Inclusive um tal medalhão, cor de ouro, que a vítima outrora estava segurando.
